A paranoia anticomunista e as falsificações da história

(Carlos Eduardo de Souza - Cadu
Presidente Municipal do Partido dos Trabalhadores)

Lendo o jornal de maior circulação do nosso estado, me deparei com um texto de um professor de Engenharia da UFSC, frequentador das páginas do MBL em Santa Catarina. Sua incursão histórica, sem nenhum conhecimento científico para isso, infelizmente ganha publicidade por parte de um editorial que longe de ter princípios, aborda de forma sensacionalista qualquer tema.

O fato que levou o “missivista” (como ele se autodetermina) escrever o texto foi um evento na Universidade com a historiadora Anita Leocadia Prestes, filha de Olga, que escreve uma biografia sobre a mãe. O livro Olga Benario Prestes – Uma Comunista nos Arquivos da Gestapo relata detalhes da vida da militante política no período em que esteve presa em campos de concentração na Alemanha até seu assassinato, em 1942.

Suficiente para a paranoia da conspiração comunista sair das catacumbas do anacronismo. Como um intelectual orgânico do pensamento conservador e fascista, o autor seleciona fatos e acontecimentos, na insana missão de criminalizar o livre pensamento ou o pensamento que difere do seu.

 

Como historiador, sabemos que os fenômenos sociais são OCORRÊNCIAS HISTÓRICAS, resultados de processos históricos. Somente enquanto processo, devem ser estudados, compreendidos e explicados.

Ao pinçar acontecimentos, fora do seu contexto e do processo histórico, o autor traça uma linha de raciocínio perigosa, na tentativa de levar o leitor a compactuar com sua verdade absoluta.

Vamos ao mundo paranoico do missivista e professor de engenharia da UFSC

Na sua missão de alertar os jovens “desavisados” com suas missivas deturpadas, o professor de engenharia da UFSC, esquematiza o perfil de Olga sutilmente, ocultando a conjuntura em que ela estava submersa e delineando uma personagem que cabe perfeitamente nas suas loucuras conspiratórias, ou seja, colocando-a em situação de algoz, quando na verdade temos uma mulher vítima do seu tempo, que foi presa, levada a um campo de concentração, aviltada, violentamente separada de sua filha recém-nascida e por fim assassinada.

Olga, viveu o triste período das grandes guerras mundiais, o período auge da modernidade, da crença ingênua no progresso, período em que cada militante das causas progressistas lutava com as armas que lhe cabiam, período que para além da reação comunista do Leste Europeu, com seus equívocos situados historicamente, o que havia hegemonicamente era a famigerada e sanguinária ação dos capitalistas em todo o mundo.

Sua filha, a historiadora Anita, numa entrevista recente no próprio jornal, dá uma pista daquilo que sempre esteve em jogo por trás desses grandes acontecimentos: “E, por trás de tudo, sempre estão os interesses do capital. Na Alemanha nazista, grandes empresas estavam interessadas naquele regime. Os judeus e outros povos que não eram considerados raças superiores que foram exterminados foram bodes expiatórios. Sempre se apresenta um bode expiatório. Hoje, há vários, inclusive os comunistas, que virou xingamento — finaliza.

Ao afirmar que os comunistas foram basicamente os culpados pela ascensão de Hitler, sem traduzir as consequências que a Primeira Guerra Mundial trouxe ao mundo e à própria Alemanha, a avassaladora crise econômica, a falta de legitimidade da República de Weimar, e sem esquecer da tirania e oportunismo do Partido Nazista, o autor “missivista” busca sorrateiramente inverter os papéis dos atores históricos que levaram a tragédia que foi a ascensão de Hitler ao poder.

Ao transformar Pinochet em estadista o “missivista” paranoico não deixa dúvidas do seu afeto, inclinação e romantismo pela ideologia fascista. Pinochet foi responsável pelos crimes de genocídio e terrorismo, com mais de 80 000 pessoas sendo presas, outras 30 000 torturadas e segundo números oficiais, mais de 3 mil pessoas foram assassinadas. O ex-ditador foi preso em Londres, quase no final da vida, através de um mandado de busca e apreensão internacional, "com fins de extradição" para Espanha (país onde seria julgado por crimes de abuso dos Direitos Humanos). Ficou detido em prisão domiciliar por 503 dias na capital britânica sendo libertado por razões médicas.

Ele também esconde o fato de que Salvador Allende, defensor da via pacífica rumo ao socialismo, concorreu quatro vezes a presidência, sendo que na última foi eleito democraticamente presidente do Chile. Submetido a ações de desestabilização econômica e social pelas agências de inteligência Estadunidense e pela oposição local, foi cercado e aniquilado pelo Exército com a inescrupulosa traição de Pinochet. 

O autor do texto vai além, tenta traçar um perfil para Getúlio Vargas, ainda hoje estudado por vários historiadores para entender sua trajetória, desde o seu surgimento para a vida pública, da sua participação na revolução de 1930, do seu passado ditatorial, do protagonismo de elevar o país à condição de Estado Moderno, do projeto nacional desenvolvimentista. Getúlio, longe de ser um comunista, quando em seu mandato presidencial devidamente eleito suicidou-se, deixou uma carta testamento denunciando seus algozes, uma elite tacanha e coronelista comprometida com as estratégias transnacionais que para impedir qualquer centelha de benefícios aos trabalhadores ou a defesa da soberania nacional transformou em caos o país.

Agora pasmem, em determinado momento do famigerado texto do “missivista”, ele eleva Getúlio Vargas à condição de salvador da pátria: “Vargas não somente cumpriu as cláusulas do tratado, como também tomou medidas efetivas para conter a ameaça comunista e ao mesmo tempo penalizar os traidores de nossa bandeira.”   Contudo, em relação a Jango e Brizola, ambos seguidores de Getúlio, ironicamente, o missivista reserva-lhes a condição de conspiradores comunistas. Vale lembrar que Jango tinha sido Ministro do Trabalho de Getúlio em 1953, muito criticado pelo movimento sindical da época, diga-se de passagem. Quando assume a presidência da República em 1961, com a renúncia de Jânio Quadros, terá seu governo alvejado pelos opositores e pelos ministros militares, que desde o início se opuseram a sua posse, aumentando assim a instabilidade política. Brizola, na época governador do Rio Grande do Sul, defensor da democracia e da estabilidade política, desde o início exigiu a posse de Goulart. Ele e o general Machado Lopes, comandante do III Exército baseado no Rio Grande do Sul, mobilizaram o estado em defesa dessa causa. Usando uma cadeia de mais de cem emissoras de rádio, o governador gaúcho clamava a população a sair às ruas para defender a legalidade.

Com o caos deliberadamente instalado, as Forças Armadas juntamente com parte da sociedade civil, conspiram e dão um Golpe de Estado, novamente com a ajuda estadunidense.  O período, nada mais óbvio, era a Guerra Fria.

 A sanha paranoica do “missivista” não para, vai do início ao fim do texto, buscando sempre pinçar e inverter os fatos e acontecimentos.

Ao afirmar que uma ditadura se instalou para defender a democracia em 1964, poderíamos rir achando ser uma piada, de péssimo gosto é claro, mas o fato é que o cidadão missivista fala sério. A coisa piora quando escreve que por determinação da ditadura é que voltamos a ter a democracia. Ele esquece propositadamente a pressão popular, as crises provocadas por equívocos econômicos, por altos índices de corrupção, pela ilegitimidade da censura, tortura, desaparecimentos e assassinatos, o regime antecipou a queda que era prevista.

Para fechar com chave de ouro, ele se atreve a torturar nossa inteligência, alegando que “com a restauração da democracia, os responsáveis por aquela funesta crise (1964) voltaram ao poder, desta vez abrigados no MDB, que transformado em PMDB configurou com o PT, provadamente, a mais maligna quadrilha de cleptocratas de que se tem notícia desde o descobrimento do Brasil.” Vejamos, o primeiro presidente do Brasil depois da ditadura militar, com a morte de Tancredo Neves foi Sarney, oriundo da Arena, que passou ao MDB somente em 1984, quando o regime já estava em derrocada. Aliás, muitos Arenistas fizeram o mesmo caminho. Depois tivemos Collor, também apoiado pelos conservadores e pela Globo, aliada de primeira hora dos militares, que venceu Lula no segundo turno. Com o Impeachment de Collor assume Itamar, depois de Itamar, temos FHC que se entregou ao neoliberalismo e tinha como vice o PFL, partido oficial que abrigava muitos dos aliados e participantes do Regime Ditatorial, FHC foi reeleito... Lula e o PT chegam em 2002 depois de três derrotas, assumindo uma herança maldita deixada desde os militares. Em 13 anos inverte prioridades e muda a cara do país, e novamente a elite tacanha e os interesses transnacionais criam o caos e transformam a instabilidade institucional em uma estratégia, em nome da moralidade e contra os comunistas dão novamente um golpe de Estado, sem provas, na presidenta eleita Dilma Rousseff. Saqueiam a nação, seu povo e nos colocam novamente de joelhos aos interesses internacionais.

No último parágrafo, em relação a UFSC o autor dá a entender que uma suposta vocação da Universidade está correndo risco, não diz qual, mas sugere que eventos como o que suscitou seu texto são irrelevantes e divorciados da missão da instituição.

Isso me fez lembrar os nazistas queimando os livros que não estavam de acordo com o Regime, bastava que a obra não estivesse de acordo com vocação conservadora do Estado Nazista e pronto, a fogueira estava pronta.

Na história temos exemplos de sobra de que, quando a ignorância traduzida por esse tipo de idiotas se eleva a patamares de propaganda e agitação, direitos são destruídos, liberdades são reduzidas, a democracia é derrubada, a soberania é vilipendiada e tudo ocorre em nome de um patriotismo às avessas.

Basta de Idiotas e Ignorantes, façamos um convite à resistência a todos e todas que almejam a inteligência como a verdadeira propulsora da nossa transcendência. 

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