Gabriel Mourão Kazapi*: DESAFIOS DE FLORIANÓPOLIS E DO PT

*Gabriel Mourão Kazapi, é advogado

No ano de 2012 rememorou-se 20 (vinte) anos da vitória da Frente Popular em Florianópolis, experiência única da esquerda florianopolitana à frente do executivo municipal. Assim, também é correto afirmar que completamos neste ano de 2013 a mesma marca histórica de 20 (vinte) anos do primeiro ano de governo popular e democrático em Florianópolis, marcado pela busca incessante da construção de uma Florianópolis mais justa, livre, ambientalmente sustentável e fundamentalmente democrática.



Importante rememorar que o Partido dos Trabalhadores naquela ocasião teve papel fundante na coligação vitoriosa, pois foi atrvés do PT, bem como de seu ato de despreendimento, que foi possível construir a ampla aliança do setores progressistas da cidade, culminando com a vitória eleitoral.

Mais do que isso, os movimentos sociais, permeados de filiados ao PT, detiveram protagonismo na vitória da ampla frente, bem como é possível afirmar que a história pregressa do PT é quem credenciou a ampla frente para com a cidade, pois em momentos pretéritos, através dos Professores Flávio Valente e Raul Guenther, havia desbravado o caminho do debate à esquerda.

Dito isto, faz-se necessária a autocrítica do papel desempenhado pelas direções partidárias nos últimos 20 (vinte) anos em nossa cidade, pois desde aquela vitoriosa experiência o PT e a esquerda não lograram êxitos eleitorais e, pior, estão cada vez mais marginalizados dos debates centrais do município.

E aqui é preciso dizer que o PT, na qualidade de maior partido da esquerda brasileira, que mudou o Brasil na última década, recuperou a auto-estima do povo brasileiro, além de inaugurar um ciclo virtuoso de mobilidade social, detém ampla responsabilidade por este quadro de inanição da esquerda florianopolitana, pois é no PT que se encontra a ambiência necessária para ver florescer o debate e, a partir daí, ver consolida uma vitória eleitoral a preceder uma gestão pública progressista, democrática e eficiente.

Não é crível que uma cidade como Florianópolis, que detém em sua população um quadro social avançado, portanto apto aos debates mais profundos, veja a cada eleição uma disputa da direita contra a direita, a famosa e famigerada luta do “pão com pão”. Sim, pois nas últimas 3 (três) eleições na cidade os campos que se mostraram “antagonistas”, que disputaram o segundo turno das eleições, eram em verdade a disputa pelo mais do mesmo, pois não há fundamental diferença, do ponto de vista da construção política, entre aquilo que os candidatos representavam.

Dito isto, é preciso forjar a futura direção partidária para protagonizar o debate do campo progressista da cidade. É preciso que o PT recupere para si o debate central da esquerda, perdido ante aos erros sucessivos de tática e estratégia eleitorais.

O PT precisa se reconciliar com os movimentos sociais, com aqueles munícipes que se demonstram sensíveis às causas humanitárias, fraternas e solidárias, assim como deve apontar para uma agenda propositiva.

Mister lembrar que estamos em constante luta de classes, sendo que só são possíveis avanços quando os personagens do tabuleiro social estão em constante mobilização, sendo o governo mero mediador da luta de classes.

Nessa senda, de nada adianta disputar o poder político institucional da cidade se o PT estiver distante dos movimentos populares, pois se assim o for não poderemos construir uma proposta consistente de cidade, que ganhe o coração e mentes do povo florianopolitano e, como via de conseqüência, se viabilize eleitoralmente.

O PT precisa entrar em ebulição, precisa ter uma choque de gestão política, tendo como consectário lógico o constante influxo de movimentos que venham a debater as grandes questões para, em corolário, construir nossa proposta de cidade.

Isso só será possível com uma gestão jovem, desprendida dos erros do passado e comprometida com o crescimento do PT. Assim urge a renovação dos quadros partidários.

Não há na cidade uma oposição consistente ao Prefeito Júnior, pelo contrário, o que se vê é uma liberdade intensa deste em governar como bem entender nossa querida Florianópolis, com os desmandos característicos da direita reacionária, permeado pelo pouco apreço ao diálogo com as forças vivas da cidade.

O PT, repise-se como maior partido da esquerda brasileira, precisa urgentemente se reposicionar em cena, necessita de um aggiornamento, para ocupar o espaço central da oposição ao governo do Prefeito Júnior, legitimando-se, assim, para a disputa eleitoral, configurando-se como real alternativa para o que aí está, sem que a direita dispute com ela mesma a cidade, diferenciando seus candidatos apenas com falsos golpes de marketing.

Propomos, então, que a nova direção do PT detenha como norte político a ocupação do espaço de oposição ao Prefeito Júnior, organizando-se geopoliticamente na cidade para tanto, realizando uma agenda paralela ao do prefeito, com o fito de apontar as idiossincrasias do governo municipal, além de optar pelo debate setorial e construtivo, afetos aos grandes temas que há muito assolam Florianópolis.

A disputa pelo poder institucional em Florianópolis se ressente tanto da ausência efetiva da esquerda que o Prefeito Júnior, então candidato, fez de um dos seus motes de campanha a oposição ao sistema de ensino em Florianópolis, que detinha o então candidato a vice-prefeito da outra chapa como principal protagonista, sendo que para a surpresa de todos, o Prefeito Júnior, antes mesmo de assumir, nomeou o mesmo Secretário de Educação, candidato à vice-prefeito da chapa então apoiada pelo prefeito da ocasião, para continuar a frente da pasta. E o que fez o PT? A resposta retumbante que nos envergonha não precisa aqui ser dita. Fica a reflexão sobre o assunto.

A gestão do Prefeito Júnior, um verdadeiro desgoverno, se sustenta na ausência de oposição qualificada e no marketing exacerbado, deixando Florianópolis de aproveitar o momento histórico que o Brasil vive em razão da década vitoriosa do PT à frente do governo federal.

Acreditamos que o processo político na Capital de Santa Catarina deve ser reformulado, não há mais espaço para uma Câmara de Vereadores inoperante, completamente desvirtuada de seu principal papel dentro da democracia moderna – o de legislar e fiscalizar as ações do Executivo. Nosso Poder Legislativo Municipal, hoje, se dedica em duas frentes, a de um grande balcão assistencialista e a de um grande balcão de negócios no que tange ao uso do solo da nossa bela Cidade.

Igual sorte resta reservada ao Executivo Municipal, impregnado pela corrupção e inoperância, envergonha os cidadãos que em nossa bela terra desenvolvem suas vidas. Florianópolis, local onde muitos tiveram o privilégio de nascer e outros aqui aportaram para dar vazão as suas vidas com qualidade, é bela e tem um povo belo, austero e com gana de fazer daqui o melhor lugar para se viver.

Há anos os gargalos da cidade são os mesmos, destacando-se a (i)mobilidade urbana, a ausência de creches, a saúde em estado periclitante, a falta de valorização do servidor público, o total descomprometimento com a geração de oportunidades para os jovens, a marginalização constante da camada popular menos favorecida economicamente, a ausência de espaços de lazer e culturais, além do notório compromisso do governo elitizado em fazer valer um uso do solo de maneira desarrazoada, em dissonância com a vocação de nossa cidade, privilegiando a especulação imobiliária em detrimento do crescimento ordenado e ambientalmente sustentável.

Por óbvio, poderíamos aqui discorrer por várias laudas acerca das agruras da cidade, mas o importante é reconhecê-las e, a partir daí, entender o papel que o PT tem na solução dos mesmos.

A educação é o maior instrumento de mobilidade social, ao passo que no esporte, na cultura e no lazer encontramos o maior meio de inclusão social, tudo embebido de políticas públicas de juventude. O diálogo entre o Poder Público e a Sociedade Civil Organizada, bem como desta com os setores produtivos e econômicos precisa ser inaugurado, a fim de que possamos levar à cabo as transformações sociais que nosso município clama.

A educação é a mola mestra da mobilidade social, bem como o maior instrumento da conquista da equidade de oportunidade entre as pessoas. Por óbvio, o investimento maciço em políticas públicas de educação é que criará toda a ambiência necessária para que possamos desenvolver nossa Cidade, sem que esta precise se desfigurar e criar hiatos sociais.

Aliás, ao se eliminar, ou ao menos mitigar, os hiatos sociais estaremos contribuindo de fato para fulminar o ponto nevrálgico do capitalismo, que detém sua pedra fundamental na exploração das desigualdades, quanto maior a desigualdade mais feroz será o sistema capitalista.

O meio ambiente é questão nevrálgica em nossa realidade, não apenas no chavão global, mas especificamente em nossa cidade, onde, com o esforço de gerações a fio, conseguimos oferecer ao Brasil e ao mundo um local harmonioso entre homem e natureza. O uso desenfreado e desregulado do solo vem, a pari passo, deturpando a beleza e a qualidade de vida em que vivemos e almejamos preservar.

Não se trata de fazer apologia negativa aos necessários empreendimentos, tampouco de nos virarmos de costas à vocação turística de nossa terra e sua indispensável infra-estrutura, mas sim de uma incessante busca pelo Desenvolvimento Sustentável.

O esporte, a cultura e o lazer, têm posição central quando se trata de transformação social e a cidade que queremos, uma vez que é daí que nasce a melhor forma de inclusão social do cidadão. Uma política cultural de caráter público deve incentivar e apoiar a produção cultural, para que as ações não fiquem sujeitas aos interesses do Estado e/ou da iniciativa privada. Essa política deve ainda resgatar a memória da comunidade, preservar sua identidade, estimular intercâmbios e, o mais importante, garantir sua livre expressão individual e coletiva. Dessa maneira, o Município não deve ser um produtor de cultura, mas sim fornecer meios para que os cidadãos possam fazer cultura e ter amplo acesso a ela.

Da segunda metade da década de 1970 até a segunda metade da década de 1980, ocorreu no Brasil o fenômeno do baby boom, donde se deu o maior crescimento demográfico de nossa história. O tempo passou e os babyboomers se tornaram jovens de 18 a 32 anos, passando hoje por todas as provações inerentes ao inicio das responsabilidades da vida adulta, gerando a responsabilidade do protagonismo juvenil. Esses jovens serão os dirigentes da Nação, não só dos Poderes constituídos, mas também de grandes empresas, da sociedade civil organizada, etc. Dessa maneira, é fulgás o desenvolvimento de políticas públicas de juventude, uma vez que é através das gerações que transformaremos substancialmente nossa cidade.

A infra-estrutura da Cidade é outra questão que deve reter parte de nossas atenções. Neste tocante propomos um plano diretor homogêneo, com linearidade, onde as várias regiões sejam contíguas entre si, com regras claras e definidas, donde suas modificações não sejam feitas ao bel prazer de sabores econômicos, e, sim, pelas mãos dos anseios coletivos da sociedade florianopolitana.

Outrossim, cabe lembrar que o sistema geopolítico de administração de nossa cidade é arcaico e como tal deve ser reformado, privilegiando a participação popular e a eficiência administrativa.

Diante de tudo o que foi dito, bem como de tudo aquilo que ainda é preciso dizer, não nos cabe outro horizonte se não o de retomar o protagonismo da esquerda florianopolitana, liderando o influxo dos movimentos populares e, em corolário, realizar a disputa do poder real, com o único fito de mudar o curso da história, retomando Florianópolis nos trilhos do sonho de ver nossa bela e amada Florianópolis voltar a ser governada sob a lógica da democracia popular, socialmente justa e ambientalmente sustentável.

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